quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Viagem senssorial 2

Como a sinestesia acontece? Para a maioria das pessoas, os estímulos externos recebidos no cérebro são processados paralelamente e em uma rota específica. Ou seja, nenhum cruza com o outro, e eles são interpretados separadamente. Porém, no cérebro de um sinesteta, as trilhas se cruzam, criando uma verdadeira salada sensorial entre visão, audição, paladar, tato e olfato. Isso faz com que uma pessoa possa sentir gosto em sons ou enxergar cores em palavras, entre tantas outras misturas possíveis para cada indivíduo sinesteta. Então sim, Antônio enxerga uma aura dourada nas mulheres pelas quais se apaixona e Luiza vê marrom nos acordes de uma música clássica. Apesar de não serem os únicos, seus sentidos são muito particulares, e talvez por isso existam tantas formas de sinestesia espalhadas pelo mundo. Sean Day, professor na Universidade de Ohio (Estados Unidos) e presidente da Iasas (Sigla inglesa para Associação Internacional de Sinestetas, Artistas e Cientistas), conta que existem mais de 70 tipos distintos de sinestesia, embora alguns sejam mais comuns do que outros. Day também explica que a reação é muito natural e que não pode ser escolhida ou mudado. É algo invariável. Se o som de um piano produz um céu azul nebuloso, sempre será assim. A pessoa não consegue escolher o que é conectado com o que, simplesmente acontece". Dados coletados por Simner mostram que, entre os que têm sinestesia, quase 50% possui mais de um tipo. Uma pessoa pode possuir diversas relações sinestésicas, enquanto outra apresenta apenas uma. outra apresenta apenas uma. Patricia Lynne Duffy sabe bem disso, ela é autora do livro "Blue Cats e Chartreuse Kittens: How Synesthetes Color Their Worlds" (sem tradução para o português), a primeira obra literária de uma sinesteta sobre sinestesia, e ministra palestras sobre o assunto nas universidades dos Estados Unidos. Além de sua própria experiência, Patricia possui contato direto com diversos sinestetas, e revela o quanto tudo é muito subjetivo e único, "outro dia, eu estava conversando com um sinesteta para quem cada palavra tem um gosto correspondente". Descobrir que nem todos são sinestetas pode ser um choque. O conhecimento de Patricia na área nasceu de sua própria vivência como sinesteta. "Quando soube que sinestesia era uma percepção que apenas uma minoria de pessoas experimentava, eu queria divulgar ao público as diversas maneiras pelas quais os seres humanos podem experimentar o mundo". A questão é que descobrir que a maioria das pessoas não partilhava da mesma visão que ela foi uma revelação um tanto quanto tardia e inesquecível. Quando estava com 16 anos, Patricia teve uma conversa com seu pai sobre sua dificuldade de infância em aprender a diferença entre as letras R e P. Ela contou que a solução veio ao perceber que para criar um "R", tudo o que precisava fazer era desenhar um "P" e depois só acrescentar mais uma linha ao lado direito, como uma perninha. Porém, deparou-se com uma surpresa memorável: ao adicionar a linha, conseguiu mudar uma letra amarela para uma laranja. Seu pai ficou confuso com a menção de letras coloridas, e Patricia mais ainda quando percebeu que sua compreensão de P como amarelo e R laranja não era algo universal. O choque foi grande, mas isso fez com que ela se admirasse ainda mais pelo assunto e aprendesse que existem várias pessoas no mundo com as formas mais diversificadas de sinestesia. Enquanto para ela as letras e palavras transbordam cores, para alguns são os sons e gostos que tomam frente aos sentidos. Sinestesia em suas diferentes formas Luiza Dias, por exemplo, conta que para ela números têm cores e que os sons apresentam uma sinfonia sensorial ainda maior: além de coloridos, podem ter gostos, texturas, cheiros e temperaturas. "Tem músicas que em uma parte vem um gosto tão doce, como marshmallow, e na parte seguinte já surge um sabor metálico... É uma aventura nova a cada som", revela. Já para Hugo Ramos o espetáculo está no som das palavras: Carol é uma mistura de azul e vermelho com um fundo verde. Catarina é azul e branco, Janaína é verde e seu nome, Hugo, é preto. Foi perguntando "qual a cor do seu nome?" para seus amigos na faculdade que ele descobriu que nem todas as pessoas pensavam e sentiam o mundo como ele. E apenas anos depois descobriu que isso tinha um nome e que não era o único com essa raridade sensorial. Até então, Hugo achava que todos sabiam a cor de seus nomes, assim como sabem quantas letras eles possuem. Esse pensamento se dava por conta da naturalidade com que a sinestesia ocorre no cotidiano dos sinestetas. Muitos não fazem ideia de que vivem com sinestesia, pois é algo intrínseco ao seu ser Day explica que, para quase todos, a condição não atrapalha a vida cotidiana mais do que, por exemplo, o olfato atrapalha uma pessoa (sinesteta ou não) no dia a dia. "Com o olfato, qualquer pessoa pode sentir cheiros muito agradáveis, como café fresco, biscoitos caseiros e perfumes exóticos. No entanto, também pode sentir cheiros desagradáveis, como vômito ou o odor de banheiros públicos extremamente sujos". O pesquisador ainda adiciona que a maioria dos cheiros do nosso cotidiano passa despercebido. Tudo tem odor, mas não é algo que mobiliza o ser humano. Da mesma forma é a sinestesia.

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